Pai provedor e mãe ‘do lar’: os absurdos que ouvi por seguir esse modelo

Quando precisei me dedicar cem por cento ao lar e aos filhos (um deles com Síndrome de Down), fui ofendida e julgada injustamente. Hoje, criei coragem para contar a minha história.

Erika Strassburger

Infelizmente, o que mais se vê hoje em dia é as pessoas achando um absurdo, em pleno século XXI, ter uma família composta de marido que trabalha fora, esposa que cuida da casa e filhos sendo criados pela própria mãe. “Onde já se viu, uma mulher que não trabalha fora! As creches existem para quê, então?!”

Com todo respeito por aquelas mães que precisam trabalhar fora de casa – tenho certeza de que a maioria delas daria tudo para ficar com os filhos pequenos em casa, ou trabalhar no regime home office, se pudessem – gostaria de mostrar o outro lado da moeda.

Esse modelo é sagrado para muitos

Na religião da qual faço parte, acreditamos que as responsabilidades familiares são bem definidas. “Segundo o modelo divino, o pai (tem) a responsabilidade de atender às necessidades de seus familiares e de protegê-los. A responsabilidade primordial da mãe é cuidar dos filhos. Nessas atribuições sagradas, o pai e a mãe têm a obrigação de ajudar-se mutuamente, como parceiros iguais.” (A Família, Proclamação ao Mundo) Adaptações podem ser feitas por razões de saúde, morte, desemprego ou outras circunstâncias.

Eu casei-me com um rapaz da minha fé, alguém que acreditava nos mesmos princípios e cujos objetivos eram semelhantes aos meus. Ainda durante o namoro e noivado, eu e ele conversávamos sobre como seria a nossa família, como criaríamos nossos filhos. Combinamos que, quando nossos filhos nascessem, seguiríamos o modelo em que acreditávamos. Onze meses depois de nos casarmos, nasceu meu primogênito com Síndrome de Down. Estávamos mais do que convictos de que esse era o modelo ideal para a nossa família.

Os primeiros seis meses do Joshua, enquanto apenas mamava no peito, foram relativamente tranquilos. Depois disso, ele começou a apresentar pneumonias recorrentes e começou a perder peso. A causa só foi descoberta quando ele tinha um aninho, idade mínima para se fazer um raio-x com contraste. Estava aspirando parte do alimento que ingeria (sólido e líquido) devido a uma estenose (estreitamento) no esôfago. Foram muitas idas ao médico, quase um mês de internação. Foram feitas algumas dilatações no local estenosado, e ele começou, com certa dificuldade, a ingerir alguns alimentos sólidos. Mesmo assim, volta e meia engasgava e vomitava. Na verdade, isso acontece até hoje, apenas com menos frequência. Ele está com 20 anos atualmente.

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A quebra de um acordo e suas consequências

Quando ele tinha um ano e três meses – a essa altura já se alimentava um pouco melhor – surgiu uma oportunidade de trabalho para mim na administração de um pequeno Shopping da cidade em que morávamos, no litoral norte do Rio Grande do Sul. Seria por apenas uma temporada (três meses). Conversei com meu marido e achamos que isso não iria impactar muito a nossa rotina, seriam apenas três meses, durante seis horas por dia. Deixamos o Joshua aos cuidados de uma pessoa próxima, e lá fui eu.

A experiência profissional foi ótima. Mas, um dia, cheguei mais cedo em casa e flagrei meu filho largado no chão frio, sem nenhuma peça de roupa, apenas com uma fralda transbordando. E a pessoa que deveria estar cuidando dele estava de costas para o pequeno, jogando no computador. Eu e meu marido ficamos muito irritados. Então decidimos que eu não deveria deixá-lo com mais ninguém.

Porém, chamaram-me novamente para trabalhar na temporada seguinte, e como o salário era tentador, resolvi aceitar de novo. O Joshua já era maiorzinho e ficaria com alguém mais responsável. A essas alturas, eu estava grávida do meu filho do meio. Isso não iria me impedir de trabalhar, mas, novamente, surgiram problemas com os cuidados do meu primogênito.

Agora seria definitivo!

Então, meu marido e eu decidimos de uma vez por todas honrar aquilo que havíamos combinado no início: ele iria trabalhar para sustentar o lar e eu trabalharia em casa, cuidando da nossa família. Eu poderia até fazer alguma coisa em casa para a ganhar meu próprio dinheiro, se quisesse, mas nunca mais terceirizaríamos os cuidados de nossas crianças.

Críticas e mais críticas

Por não entenderem as nossas crenças, não saberem do acordo que meu marido e eu tínhamos, tampouco conhecerem as tentativas fracassadas de terceirização dos cuidados do Joshua, choveram críticas de algumas pessoas próximas. As críticas eram direcionadas principalmente a mim, pois, na concepção delas, era um absurdo nós termos outro filho depois de o primeiro ter nascido com deficiência, também era um absurdo eu ser dona de casa nos tempos atuais, principalmente tendo faculdade. Era como jogar meu diploma no lixo.

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Na verdade, alguns se opunham ao nosso desejo de ter uma família maior. Nós queríamos, mesmo, era ter pelo menos quatro filhos. Mas acabamos tendo três. Quando engravidei do meu caçula, fizemos questão de não comunicar essas pessoas tão cedo. Nós já morávamos em outra cidade, então acabamos não presenciando olhos revirados ou comentários maldosos.

Leia: 10 razões para ter mais de um filho

As bênçãos da perseverança

A vida não foi fácil no início, mas fomos abençoados materialmente pela nossa decisão. Meu marido cumpriu honrosamente sua missão de sustentar a família, meus filhos nunca mais caíram nas mãos de pessoas desleixadas ou que considerassem um fardo pesado demais cuidar deles, e eu pude acompanhá-los de perto o tempo todo. É muito tranquilizador e gratificante saber que nossos filhos estão bem, seguros e aprendendo coisas boas.

Infelizmente, por outras razões, meu casamento terminou alguns anos depois. Mas nunca deixei de ser grata ao meu ex-marido por jamais ter falhado no sustento da nossa família. Mesmo depois de nos separarmos, ele fazia questão de dar o melhor para os filhos. Ele, inclusive, pediu-me para continuar em casa cuidando das crianças (quando nos separamos meu caçula era bebê), pois ele continuaria nos sustentando. E ele cumpriu com o que disse.

Nenhuma injustiça ficará impune

Gosto muito da analogia “calçar as sandálias do próximo” para poder entendê-los. Quando criticamos as escolhas dos outros – principalmente em se tratando de escolhas tão sagradas como as relacionadas à criação de filhos, cuidados do lar, sustento da família – estamos fazendo julgamentos baseado em nossa própria realidade, não na deles. Não moramos na casa dessas pessoas, não sabemos o que elas conversam, então, por que nos achamos no direito de querer ditar regras?

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Uma das experiências mais dolorosas que vivi, que me dói até hoje só de lembrar, ocorreu no velório do meu ex-marido. Ele faleceu de acidente em 2015, aos 37 anos. Eu já estava muito fragilizada, ainda mais por ver meus filhos arrasados com a perda do pai, e veio até mim um familiar dele que eu mal conhecia, nem me lembrava o nome (vejam bem, em um velório!), e disse: “Agora tu vais trabalhar, né?”. Eu perguntei, “Como assim? E eu não trabalho por acaso? Não entendi!”. Eu fiquei tão desnorteada com aquela acusação fria e infundada, que nem consegui raciocinar direito.

Nessa época, já fazia quase três anos que eu trabalhava escrevendo artigos. Eu trabalhava home office e o dia todo. Também era curadora de mídias sociais e ganhava o suficiente para me sustentar. Voltei ao mercado de trabalho em 2012, quando meus filhos tinham 12, 9 e 5 anos. O Joshua com 12 anos tinha mentalidade de 5, então, eu ainda tinha três crianças.

Mas mesmo que eu não trabalhasse de forma remunerada, eu seria menos digna por ser “apenas” uma dona de casa? Que crime tão grave é esse, o de ser dona de casa de tempo integral? Que direito as pessoas acham que têm para opinar sobre uma realidade que elas não conhecem? Elas são mães de crianças pequenas? São mães de uma criança com necessidades especiais? São mães sozinhas?

Desculpem-me pelo desabafo, mas fiquei e ainda fico realmente indignada com essa de tentativa de interferência e julgamento. Acredito sinceramente que todo julgamento injusto traz consigo tristes consequências. Torço para que essas pessoas ponham a mão na consciência e se arrependam das injustiças que disseram.

A sabedoria de Deus parece loucura aos tolos

Desde que voltei ao mercado de trabalho, tenho sido abençoada com trabalhos que posso fazer de casa. Para quem tem um filho especial, essa é uma bênção maravilhosa. Ainda hoje não preciso terceirizar os cuidados do Joshua. Apesar de estar com 20 anos, ele não tem maturidade para ficar sozinho em casa. Mesmo assim, infelizmente, não consigo dar conta de todas as coisas da forma como gostaria. Meus dois trabalhos ocupam 12 horas cada dia. E o resto do tempo preciso distribuir para as outras tarefas. Quando acumulamos tarefas, infelizmente acabamos deixando algumas coisas a desejar.

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Às mulheres que precisam trabalhar fora de casa: façam o melhor que puderem. Lembrem-se sempre de fazer suas escolha em espírito de oração, deixando Deus lhes mostrar o melhor caminho.

Apesar de, hoje em dia, ser eu a única provedora do lar, ainda acredito e defendo o modelo que citei inicialmente. Deus soube perfeitamente o que estava fazendo quando dividiu as tarefas entre marido e mulher. Nenhum dos dois merece ficar sobrecarregado. Ele designou as responsabilidades dessa forma porque nos ama, porque quer que tenhamos saúde, que tenhamos tempo suficiente cumprir adequadamente com nossas obrigações, que tenhamos tempo para nutrir a mente e o espírito. E Ele quer proteger as famílias, principalmente as nossas crianças indefesas.

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Erika Strassburger

Erika Strassburger nasceu em Goiás, mas foi criada no Rio Grande do Sul. Tem bacharelado em Administração de Empresas, trabalha home office para uma empresa gaúcha. Nas horas vagas, faz um trabalho freelance para uma empresa americana. É cristã SUD e mãe de três lindos rapazes, o mais velho com Síndrome de Down.