As crianças e as interações on-line: o papel dos pais

Você deixaria seu filho de 7 anos sozinho em uma praça no centro da cidade? Deixá-lo sozinho na internet pode ser a mesma coisa.

Stael Ferreira Pedrosa

Segundo a educadora Lua Barros, deixar os filhos sozinhos na internet equivale a deixá-los sozinhos em uma praça onde cruzam milhares de pessoas, já que “a internet é um lugar onde tudo acontece”.

Esse “tudo acontece” já era abordado por estudiosos há 10 anos. As pesquisadoras Mariângela Momo e Marisa Costa analisaram o modo de vida e comportamento de crianças em idade escolar, da periferia de uma grande cidade, e o que perceberam é que havia, já em 2010, uma grande influência das configurações culturais no comportamento das crianças pesquisadas. Já se apresentavam o senso de efemeridade (nada é para sempre), descartabilidade (coisas podem ser descartadas e substituídas), individualismo, visibilidade (desejo de ser visto e preocupação em como os outros as veem), superficialidade, instabilidade.

De acordo com as pesquisadoras, essas crianças já procuravam de modo contínuo se inserir na cultura e ser parte da sociedade consumista, a adequar seus corpos ao mundo das imagens que se apresentavam diante de seus olhos nas telas.

A expressão “adequar seus corpos” pode ser entendida como modelar a si mesmas a partir do que está na moda, do que é censo comum e popular nas telas, seja da TV, do computador ou do celular.

O lado bom da tecnologia x riscos

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), as novas tecnologias aumentaram a oportunidade das crianças se expressarem, buscarem informação, socializar ou conseguir ajuda por um telefonema ou mensagem de WhatsApp. No entanto a própria OCDE alerta que também surgiam novos pontos de estresse. As crianças do século XXI estão sofrendo mais de ansiedade, e embora os filhos estejam mais conectados via tecnologia aos pais, ao mesmo tempo é difícil monitorar o que fazem na internet quando passam a ter seus próprios aparelhos.

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E quanto maior a tecnologia, maiores os riscos a que as crianças estão expostas, desde a escola até suas casas. E que riscos são esses?

Abuso sexual

Qualquer tipo de exploração sexual de crianças, seja por imagens ou fisicamente, é possível acontecer quando a criança é exposta ao mundo virtual sem supervisão de um adulto responsável.

Leia: Porque ver pornografia faz de você cúmplice da exploração infantil e escravidão sexual

Cyber bullying

É o mesmo bullying que ganha mais visualização e pode ser compartilhado inúmeras vezes, fazendo a vítima se sentir humilhada, envergonhada e pode levar a criança ou jovem a desenvolver ansiedade e depressão. Já houve casos de jovens que se suicidaram ao ter fotos íntimas divulgadas na internet.

Vícios em videogames

Este é um problema que já é considerado oficialmente um distúrbio mental desde 2018, (CID 11) de acordo com os critérios da OMS – Organização Mundial de Saúde.

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Exposição a conteúdos impróprios e perigosos

Estatísticas apontam que além dos materiais de cunho sexual, alguns dos assuntos mais buscados na rede por crianças e adolescentes são bastante perigosos, como métodos para emagrecer (19%), formas de se machucar (15%) e até maneiras para cometer suicídio (13%).

Comportamento sexual (sexting)

Comportamento precoce em relação a sexo e que inclui: conversas sobre sexo, troca de imagens de nudez ou encenação na câmera de atitudes de cunho sexual.

Grooming

A palavra é complicada, mas seu significado é ainda pior: ações de sedução feitas por um adulto a fim de ganhar a confiança e amizade de uma criança através de manipulação e técnicas de persuasão que levam os pequenos a fazerem tudo que este adulto deseja. Geralmente se passam por outras crianças e pedem fotos, conseguem informações, como nome da escola ou endereço, a fim de levarem a efeito seu interesse, seja vender fotos a pedófilos ou mesmo cometer abuso sexual.

Além disso, especialistas relatam casos de transtorno de ansiedade e de depressão entre usuários mirins, além de dificuldade de socialização e de problemas de postura.

O que fazer?

Em primeiro lugar, os pais devem manter canais de comunicação abertos, deixar os filhos terem confiança de contar a eles tudo o que lhes acontece. Essa relação é construída quando os pais ouvem os problemas e não agem impulsivamente gritando ou batendo na criança. Se isso ocorre, ela não lhes contará nada por medo. Também há casos em que os próprios pais desconhecem os perigos da internet. Portanto, se seu filho tem ficado tempo demais na internet, siga estes conselhos do pesquisador e especialistsera em segurança da informação, Miguel Ángel Mendoza:

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1. Tenha o controle

Não é necessário saber mais que a criança sobre internet, mas, ao detectar que tem algo errado, converse com seu filho em um ambiente de colaboração com paciência e compreensão. Conte a ela sobre os perigos que existem na rede de acordo com a capacidade de compreensão dela.

2. Não tire o acesso

Tirar o acesso da criança à internet pode não ser o melhor caminho. Ela poderá procurar este acesso fora de casa e sem supervisão, o que torna tudo pior. Supervisione o que o seu filho faz e quando ele pode usar a internet. Limite o número de horas e os horários na rede. Além disso, instrua-o a não fornecer fotos, senhas ou informações pessoais a ninguém na internet.

3. Utilize ferramentas de controle dos pais

São ferramentas que possibilitam bloquear o acesso a páginas ou sites na internet com determinado conteúdo.

Tomar todos os cuidados acima não é garantia que seu filho estará 100% seguro ao navegar pela rede, mas diminuirá bastante sua exposição aos riscos. O melhor caminho é deixar a criança saber que pode procurar os pais em qualquer situação que se sintam desconfortáveis ou em perigo.

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Stael Ferreira Pedrosa

Stael Ferreira Pedrosa é escritora free-lancer, tradutora, desenhista e artesã, ama literatura clássica brasileira e filmes de ficção científica. É mãe de dois filhos que ela considera serem a sua vida.