Resolver conflitos no casamento: o que fazer e o que não fazer, segundo a ciência

A diferença entre permanecer casado ou divorciar-se não tem muito a ver com ter ou não ter brigas, mas em como elas são resolvidas.

Stael Ferreira Pedrosa

Ninguém está livre de problemas de relacionamento, eles sempre surgem e sempre irão surgir. Isso acontece devido às dificuldades de adaptação entre duas diferentes culturas, diferentes modos de vida, ao nível de sincronia que existe entre o casal e o amadurecimento individual. Cada uma das partes sofre adaptações para se tornar um “eu conjugal”, um casal.

A diferença entre resolver os conflitos e permanecer casados ou enfrentar o divórcio não está nas questões que geram as brigas, mas em como elas são resolvidas. Quando ambas as partes querem manter a relação, quando há amor, e há desejo de resolver os conflitos, estes quase que se resolvem por si só.

No entanto, quando o relacionamento está minado por profundas divergências e os parceiros permanecem arraigados aos seus pontos de vista, se há orgulho e dificuldade em validar os sentimentos e pensamentos do outro, o caminho da solução será um pouco mais longo, mas ainda é possível.

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O que diz a ciência

Embora os estudos sobre o relacionamento conjugal do ponto de vista científico seja algo escasso no Brasil, no exterior, diversos estudiosos têm se debruçado sobre o tema. De fato, existem boas pesquisas no Brasil que têm provido os terapeutas de técnicas eficazes para ajudar casais que enfrentam dificuldades.

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Um exemplo é a pesquisa de Simone Bolze, Beatriz Schmidt, Maria Aparecida Crepaldi e Mauro Vieira, feita com 104 casais, com a média de 10 anos de casamento. De acordo com os estudiosos, os problemas conjugais apresentados geralmente se iniciam por diferentes motivos relacionados a:

  • Criação e educação de filhos
  • O tempo dedicado à relação
  • Finanças
  • Divisão de tarefas
  • Questões legais
  • Consistência do contrato conjugal (formal ou não)
  • Formas de comunicação
  • Temperamento
  • Autoestima

O que se pode pensar é que praticamente todos os casais enfrentam, em maior ou menor grau, os problemas acima, e nem todos se separam e nem todos permanecem casados. Então, onde está a diferença? Para os pesquisadores, a diferença está na dimensão do problema, na frequência em que ocorrem, pela sua intensidade, conteúdo e métodos de resolução utilizados. Para alguns casais, estes problemas apenas causam “chateação” ou irritação. Já para outros, pode ser algo opressivo que leva ao fim da relação.

O que fazer

Para as pesquisadoras norte americanas Lorey Wheeler, Kimberly Updegraff, e Shawna Thayer, as estratégias de solução de conflitos passam pela diferenciação do que é construtivo e do que é destrutivo. Para as pesquisadoras, o processo construtivo inclui a cooperação, o comportamento de querer resolver os conflitos e a intenção de compreender as necessidades do outro. Para os pesquisadores brasileiros Crístofer Costa, Cláudia Cenci e Clarisse Mosmann, isso envolve os seguintes pontos:

1. Autocontrole

Evitar o grito, o confronto físico, o apontar de dedo ou encontrar o culpado. Antes de brigar, pare, respire fundo e exerça o autocontrole.

2. Busca mútua por soluções

Quando tudo que os parceiros querem é encontrar culpados para qualquer situação, ou se agarram a seus pontos de vista e não abrem mão de suas verdades, não existe meio de resolver o conflito. Há que se ter o desejo mútuo de resolver.

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3. Confronto não agressivo

O confronto agressivo é o pior meio de se resolver qualquer problema, quanto mais acusações, menos soluções. É necessário além do autocontrole, abrir mão de estar certo, dar a possibilidade ao outro de ter razão.

4. Comunicação respeitosa

Inclui abrir-se e falar, conversar, discutir os problemas. Quando um dos dois se fecha e se recusa a conversar, demonstra um comportamento imaturo e incompatível com o casamento. Ou, se ao contrário, grita, acusa e não ouve, demonstra falta de respeito ao outro. Ouvir e ser ouvido é uma necessidade humana premente no casamento.

O que não fazer

1. Racionalização excessiva

O casamento não é parte das ciências exatas, não existe fórmula para se encontrar resultados. Nas ciências humanas, lida-se com o comportamento humano e este é geralmente imprevisível diante das mais variadas situações. Por isso, não adianta racionalizar e tentar compreender todos os meandros de uma relação afetiva. Prefira estar em paz a estar certo. Tente ouvir o que o outro está dizendo em vez de julgar cada palavra que ele diz. Isso já é meio caminho andado para a solução.

2. Negação

Tenha o bom senso de admitir quando errar, de querer ver a situação como ela realmente é. Não use de autojustificativas para ser a “vítima” nos conflitos que surgem.

3. Percepção negativa do parceiro e da relação

Cada pessoa é única, e a individualidade de cada cônjuge interfere na resolução dos conflitos conjugais devido à expectativa positiva ou negativa em relação ao parceiro e em como as coisas se resolverão. Se um dos parceiros costuma ser agressivo ou incompreensivo, é muito provável que o outro desenvolva uma percepção negativa do parceiro e tenha medo ou ansiedade em conversar a respeito dos conflitos, gerando ainda mais problemas.

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4. Pessimismo quanto aos problemas conjugais

Este advém do item anterior. Quando um dos parceiros crê que os problemas são sempre nocivos e que não há meios de solucionar o conflito, esta atitude cria uma barreira ao enfrentamento e solução desses.

Conclusão

Os pesquisadores citados concluem que os motivos que levam às brigas não são decisivos para a continuação ou o fim do casamento, portanto, não são os problemas que devem ser primeiramente trabalhados, mas sim as características emocionais individuais e a maneira como os casais lidam com os conflitos. Portanto, o caminho que a ciência aponta é o autoconhecimento, a reflexão sobre as próprias atitudes, o desejo de seguir adiante com a relação e a disposição individual e mútua de solucionar os problemas.

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Stael Ferreira Pedrosa

Stael Ferreira Pedrosa é escritora free-lancer, tradutora, desenhista e artesã, ama literatura clássica brasileira e filmes de ficção científica. É mãe de dois filhos que ela considera serem a sua vida.