Como os filhos enxergam os pais que bebem

Ver um pai ou mãe bêbado e ainda sofrer as consequências, desestrutura o mundo infantil onde os pais são a referência de segurança e liderança.


Stael Ferreira Pedrosa

Quando se fala em drogas, logo nos vem à mente cocaína, maconha, craque entre outras, pouco se fala do álcool como a droga perigosa que é. Em nossa sociedade é aceito seu consumo e até incentivado pela propaganda. É complemento de momentos felizes e comemorações, de reuniões familiares e de amigos. A pessoa que bebe é vista como divertida e descolada.

Atualmente o alcoolismo é conceitualmente descrito na décima revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10) e na quarta revisão do Manual Diagnóstico e Estatísticos dos Transtornos Mentais da Associação Norte-americana de Psiquiatria (DSM-IV) como síndrome de dependência do álcool. O problema é tão grave que tem se tornado caso de saúde pública no Brasil. Afeta não somente a saúde física e mental do indivíduo como sua interação social e seu convívio familiar.

O álcool e a família

As relações afetivas são fundamentais para a saúde mental de todos os que delas participam, sendo olar o local privilegiado e consagrado para o desenvolvimento humano. Devido à importância do ambiente do lar na formação da criança, pode-se dizer que o ambiente externo influencia, mas é a família, seus costumes e hábitos que perduram por toda a vida do indivíduo.

Segundo Kaloustian “a criança, para o pleno e harmonioso desenvolvimento de sua personalidade, deve crescer no seio da família, em um ambiente de felicidade, amor e compreensão” (Kaloustian, 2010, p.60).

A criança que devido ao alcoolismo não encontra um ambiente harmonioso no lar, sofre os efeitos de várias maneiras. Sendo alguns de cunho permanente e outros passíveis de tratamento para diminuição de danos. Alguns dos problemas que envolvem a criança filha de pais alcoólatras são:

  • Violência física, psicológica e ou sexual.

  • Vivência de brigas no lar.

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  • Medo e falta de intimidade no relacionamento familiar.

Estes são fatores que geram um comportamento e uma visão de mundo dos filhos de pais alcoólatras que incluem:

  • Sentimentos contínuos de incerteza e angústia.

  • Falta de perspectiva para o futuro.

  • Impotência diante da situação familiar.

  • Culpa – alguns pais culpam os filhos, despesas, seu mau comportamento – “vocês me deixam louco(a)” – por seu alcoolismo.

  • Sentimentos de solidão e desamparo.

  • Falta de confiança nos outros e em si mesmo.

  • Baixa autoestima.

  • Dureza de sentimentos (não quero sentir para não me frustrar).

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  • Dificuldades sociais.

  • Severo autojulgamento.

Para a família, o dependente passa a ser um problema e quando este chega ao lar, traz consigo toda a carga negativa de sentimentos perversos que a família já está temerosa de vivenciar.

Para os filhos é esta a visão

  1. – Chegou o problema…

  2. – Chegou a violência…

  3. – Pronto, acabou a paz!

  4. – Não quero vê-lo(a).

O que fazer?

Há muito pouco que as crianças possam fazer. Como vítimas elas estão numa posição desigual e fraca, necessitam também ser cuidadas. Cabe aos pais conscientizarem-se de que precisam mudar e começar a dar os passos necessários nessa direção.

Familiares e amigos próximos podem ajudar e incentivar. Como?

Empatia

  • Tente se colocar no lugar do dependente e como ele se sente, afinal ele também é vítima de seu vício. Talvez esteja deprimido, fraco e sem perspectiva de mudanças positivas.

Falar

  • Tente conversar quando a pessoa estiver sóbria.

  • Fale sobre seu comportamento no lar e o quanto afeta as crianças.

  • Incentive-o a falar sobre os motivos. Mostre compaixão, mas não tolerância com o vício.

  • Fale da necessidade de mudança. Incentive-o a buscar ajuda.

  • Demonstre firmeza, pois o viciado tende a não querer assumir responsabilidades. Diga-lhe que se atitudes de mudança não acontecerem, você poderá solicitar intervenção judicial para garantir o bem-estar das crianças.

  • Peça-lhe para diminuir a ingestão gradualmente.

Apoiar

  • Ajude e dê suporte.

  • Elogie cada passo que o dependente der na direção da melhora e continue a incentivá-lo.

  • Ajude ficando com as crianças ou acompanhando o dependente para tratamento.

  • Converse com as crianças e assegure-as de que nada do que está acontecendo é culpa delas, ou solicite a visita de uma assistente social, geralmente nos postos de saúde isso pode ser feito.

Existem programas governamentais de combate ao uso de drogas, tratamento do dependente e diminuição de danos para as famílias. Leia “Política sobre Drogas” do Ministério da Justiça e como conseguir ajuda.

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Stael Ferreira Pedrosa

Stael Ferreira Pedrosa é escritora free-lancer, tradutora, desenhista e artesã, ama literatura clássica brasileira e filmes de ficção científica. É mãe de dois filhos que ela considera serem a sua vida.