Automedicação: uma atitude perigosa e que pode até matar

Até 2025, 10 milhões de pessoas podem morrer por causa da automedicação.

Stael Ferreira Pedrosa

Recentemente foi noticiado o caso do médico que se tratou com uma mistura de hidroxicloroquina e azitromicina, para a Covid-19, conseguidos de forma irregular no hospital onde trabalhava.  Foi considerado irregular porque é um medicamento ainda em fase de testes, sem o aval da ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, e porque tal medicamento só poderia ser usado em pacientes internados sob estrita supervisão. O médico veio a óbito após 4 dias.

O que mais nos assusta nessa história é o fato de ser um médico – alguém habilitado a prescrever medicamentos – a utilizar um medicamento ainda em fase de testes e tê-lo conseguido de forma irregular.

Somente profissionais qualificados podem prescrever medicamentos

Nenhum trabalhador da saúde pode prescrever medicamentos a menos que tenha formação adequada para isso, ou seja, médicos, cirurgiões-dentistas e veterinários. Psicólogos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e farmacêuticos não podem fazê-lo.

Isso porque os médicos, cirurgiões-dentistas e veterinários conhecem a ação dos medicamentos dentro do organismo vivo, sua farmacocinética, que é o caminho que o medicamento percorre em cada organismo, sua farmacodinâmica – o mecanismo de ação, e sua farmacogenômica – resposta do paciente ao tratamento medicamentoso, que difere de um indivíduo a outro devido às variações genéticas. Também existem as interações, quando um medicamento potencializa ou invalida a ação de outro medicamento. Por isso, somente um desses profissionais citados pode avaliar através da sintomatologia, do diagnóstico adequado e outros fatores, como exames, o melhor medicamento para tratar cada patologia, a dosagem e o tempo que o tratamento deve durar.

A população de modo geral não tem, claro, esse tipo de conhecimento especializado, ou seja, é leiga e não pode indicar medicamentos um para outro ou para seus animais. Ainda que um medicamento tenha dados ótimos resultados para alguém, ele não pode recomendá-lo a outra pessoa, justamente por desconhecer os efeitos que tal medicamento possa ter no organismo alheio. Existem casos em que um medicamento indicado para uma pessoa levou outra à morte.

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O que não o mata deixa-o mais forte?

Isso é verdade, mas não se aplica às pessoas e sim às bactérias. Antes de ter conhecimento sobre os riscos, eu mesma, confesso, já me automediquei algumas vezes. Como tenho diabetes, sofro algumas vezes por ano de infecção urinária (cistite), que acomete mais mulheres que homens, em cerca de 80%, por causas anatômicas (uretra mais curta) e ainda mais as diabéticas.

Cansada de ir ao médico várias vezes e receber a mesma prescrição, eu pensei que já sabia me medicar e comecei a fazê-lo. A princípio, pareceu dar certo, mas logo os resultados surgiram, desenvolvi cistite de repetição porque as bactérias que infectavam meu sistema urinário não receberam doses suficientes e nem por tempo necessário para morrerem e, então, como era de se esperar, elas ficaram mais fortes, não eu. Adquiriram resistência ao medicamento mal utilizado e foi necessário um tratamento mais forte e mais prolongado para conseguir o mesmo resultado que eu conseguia antes. A lição valeu.

Quais os riscos da automedicação

Em abril de 2019, o Correio Brasiliense publicou um relatório sobre o assunto com uma previsão alarmante: até 2025, 10 milhões de pessoas podem morrer por causa da automedicação. Isso ocorre porque, além dos efeitos colaterais imprevisíveis devido às condições físicas e variações genéticas, dosagens inadequadas fazem com que as bactérias adquiram resistência aos medicamentos, que passam a não fazer mais efeito – como foi no meu caso – fazendo surgir superbactérias altamente resistentes. Isso leva, atualmente, cerca de 700 mil pessoas à morte todos os anos. No Brasil, entre 40% e 60% das doenças infecciosas já são resistentes a medicamentos. Este é um dos motivos que levou à criminalização da venda de antibióticos sem receita médica.

Segundo o relatório, a maioria das pessoas se medica para sintomas como de gripe e resfriado. Sendo a gripe um problema viral, não existe antibiótico que cure. Por isso, não adianta tentar conseguir aquele medicamento que foi ótimo para a dor de garganta no ano passado. Não terá resultado algum em relação à gripe. Só é possível amenizar os sintomas, através do uso de antitérmicos e analgésicos receitados por médico. No mais, é esperar o ciclo virótico terminar com hidratação e repouso.

Os campeões da automedicação

A dor é um dos fatores determinantes, já que ninguém quer sofrer dor enquanto espera na fila de atendimento médico, é mais fácil tomar uma dipirona ou paracetamol. Por isso os analgésicos estão no topo do ranking dos medicamentos mais utilizados sem receita médica (50%), em seguida vêm os antibióticos (42%) e os relaxantes musculares (24%).

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Já cientes dos problemas em se tomar antibióticos sem controle médico, deve-se ter em mente que os analgésicos, anti-inflamatórios e relaxantes musculares não são tão inocentes como parecem. Todos têm efeitos colaterais (até chás de ervas têm), muitos elevam a pressão arterial, podem causar malformações fetais, insuficiência renal e outros. Além disso, podem criar dependência, que é de difícil tratamento e ainda mascarar um problema maior, como hipertensão ou tumores.

O que fazer para evitar a automedicação

Os sintomas mais comuns que levam as pessoas a se automedicarem são a dor de cabeça e as cólicas menstruais. Em ambos os casos, é possível amenizar a dor sem precisar tomar remédio. Experimente para a dor de cabeça um banho morno relaxante, massagem e compressas frias na testa e nuca. Para as cólicas, banhos mais quentes e compressas (bolsa de água quente) na região pélvica. Isso geralmente alivia bastante a dor. Caso a dor persista, mesmo com estes paliativos, procure um médico. Pode haver um problema maior ainda não detectado.

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Stael Ferreira Pedrosa

Stael Ferreira Pedrosa é escritora free-lancer, tradutora, desenhista e artesã, ama literatura clássica brasileira e filmes de ficção científica. É mãe de dois filhos que ela considera serem a sua vida.